Especial da Rádio Uerj e seminário de Comunicação celebram dia do centenário de Darcy Ribeiro

26/10/202208:14

Diretoria de Comunicação da stake

Estreia nesta quarta-feira (26), o especial “Ontem, hoje e sempre Darcy”. A série de três episódios produzida pela Rádio Uerj é uma das ações promovidas pela Universidade no dia do centenário de Darcy Ribeiro. Como parte das comemorações, o Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon) da Faculdade de Comunicação Social (FCS) da Uerj realiza também o seminário on-line “Darcy, o Brasil deu no que deu”, a partir das 14h. Com palestras e mesas de debate, o evento celebra os 100 anos do sociólogo, antropólogo, historiador, professor, escritor, indigenista, membro imortal da Academia Brasileira de Letras e ex-ministro da Educação.

Nascido em 26 de outubro de 1922 em Montes Claros (MG) e radicado no Rio Janeiro por décadas, Darcy contribuiu para o desenvolvimento de importantes políticas públicas educacionais. A atuação como intelectual e político sempre foi pautada na defesa da educação pública de qualidade, inclusiva, universal e gerida pelo Estado.

Nesse sentido, destacam-se, entre outras iniciativas, a elaboração, em parceria com o educador Anísio Teixeira, do projeto pedagógico da Universidade de Brasília (UnB), da qual foi o primeiro reitor. Fundada sem cátedras, com estruturas hierárquicas mais flexíveis, o modelo da UnB, moderno e adequado às necessidades nacionais, serviu de inspiração para a posterior reforma do ensino superior brasileiro.

“Darcy sempre mostrava que a universidade tem que produzir conhecimentos que sejam revertidos para a sociedade. Ela não pode ser algo só para deleite, deve estar extremamente vinculada a um projeto de país e a sua localidade”, salienta a professora Lúcia Velloso Maurício, que atuou na Faculdade de Formação de Professores (FFP). O depoimento faz parte de entrevista da professora ao programa Campus, da TV Uerj, lançado na abertura do Ano Darcy Ribeiro na Uerj, no mês de março.

Mais tarde, no início dos anos 1990, o intelectual coordenou o processo de implantação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Sediada em Campos dos Goytacazes, a instituição é fruto da mobilização popular que conseguiu incluir na Constituição Estadual de 1989 uma emenda que previa sua fundação.

Antes, na década de 1980, como vice-governador e secretário estadual de Ciência e Cultura no primeiro mandato de Leonel Brizola, Darcy criou o projeto de ensino público em tempo integral, com os Centros Integrados de Educação Pública, os Cieps. Com período letivo de oito horas diárias, o objetivo era promover, além do ensino regular, atividades esportivas e culturais, alimentação e assistência médica aos alunos, em prédios-escolas que seguiam um projeto arquitetônico padrão. “O Ciep pretendia que cada criança, da primeira à quarta série, aprendesse a ler, escrever e calcular, de fato, e não como se fosse um papagaio, porque essa é a condição para você estar numa sociedade letrada”, aponta Lúcia Velloso.

Já nos últimos anos de vida, enfrentando um câncer, o então senador Darcy Ribeiro foi um dos responsáveis pela elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Sancionada em 1996, a lei define e regulariza a organização da educação brasileira, com base nos princípios estabelecidos na Constituição, desde a educação básica até o ensino superior.

História em detalhes

No primeiro episódio do especial “Ontem, hoje e sempre Darcy”, Sonia Wanderley, professora, historiadora e diretora do Centro de Tecnologia Educacional (CTE) da Uerj, conta a biografia do antropólogo, desde a infância em Minas Gerais, a passagem pela Faculdade de Medicina em Belo Horizonte e a atuação como indigenista nos anos 1940.

“O trabalho em educação de sua mãe e a leitura atenta de obras clássicas de literatura e de análise social encontradas na biblioteca de seu tio Plínio, somados à efervescência política das décadas de 1930 e 40, no Brasil e no mundo, fizeram o jovem Darcy abandonar a Medicina, em 1943, porque ele queira estudar ‘fenômenos humanos vivos’”, explica Sonia na narração. Surgiu então o interesse pela sociologia e antropologia, especialmente sobre a temática dos povos originários.

Durante dez anos, o educador desenvolveu pesquisa de campo no Mato Grosso e na Amazônia, e tais os esforços pela causa indígena contribuíram para a criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Parque Nacional do Xingu e do Museu do Índio, no Rio. “Mesmo após deixar a pesquisa, Darcy manteve daquela experiência a lição maior da etnologia para ele, que é exatamente você abrir sua mente para a escuta, para saber o que aquela cultura é, e não aquilo que normativamente gostaríamos que fosse”, ressalta a professora Helena Bomeny, do Instituto de Ciências Sociais da Uerj, ao programa Campus.

Darcy recebeu diversos títulos de Doutor Honoris Causa, no Brasil e no exterior. Crítico das profundas desigualdades sociais e árduo defensor da democracia e do estado democrático de direito, lutou contra a ditadura militar, voltando em definitivo do exílio somente em 1976, após a Anistia. “Ele faz muita falta pelas causas que defendia, pelas ideias que trazia como prioridade e, sobretudo, pela centralidade que ele colocava da civilização sobre a barbárie”, enfatiza Helena.

Os segundo e terceiro episódios da série da rádio também abordam a relação do intelectual com a política e destacam o legado para o Brasil. Além do especial, a emissora lança um novo episódio do “Uerj Entrevista”, também dedicado à memória de Darcy. No programa, Giovanna Grillo conversa com a professora Lúcia Velloso Maurício, atualmente conselheira da Fundação Darcy Ribeiro (Fundar), que relembra as ideias e ações do antropólogo. A obra de Darcy, alicerçada na realidade, sem abrir mão da utopia, as reflexões acerca da formação do povo brasileiro e a defesa enfática da educação pública ainda são relevantes.

Debate on-line

O título do evento do Lacon, que será transmitido ao vivo pelo canal do laboratório no YouTube, faz referência ao livro “Aos Trancos e Barrancos: como o Brasil deu no que deu”, importante obra do autor, publicada em 1985.

Na programação, estão previstas duas mesas para discutir a atuação e o pensamento do antropólogo. Na primeira, às 14h, com o tema “Darcy Ribeiro e Amazônia: Qual o papel da comunicação hoje?”, o objetivo é olhar o jornalismo e a comunicação de uma maneira abrangente, considerando o sistema financeiro, predatório ao lidar com a preservação da natureza e dos seres humanos. A mediação será feita pelos professores Raquel Paiva e Ricardo Freitas, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Uerj.

Entre os palestrantes, estarão Ailton Krenak, escritor e filósofo, descendente dos povos originários, autor dos livros “Ideias para adiar o fim do mundo” (2019) e “A vida não é útil” (2020); Eliane Brum, jornalista e escritora, autora de “A vida que ninguém vê” (2006) e “Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo” (2021), que vive em Altamira (PA) há cinco anos, onde fundou a plataforma jornalística Samaúma; Muniz Sodré, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defensor do respeito total aos povos originários e atualmente responsável por uma coluna dominical no jornal “Folha de São Paulo”.

A segunda mesa, às 16h, terá como tema “Darcy Ribeiro: o intelectual brasileiro”, e tem o propósito de debater a influência do homenageado no Brasil e na América Latina, com enfoque em sua intensa atuação política e seu papel como crítico às estruturas de dominação ideológica e cultural nos países em desenvolvimento.

Participam da discussão Dênis de Moraes, professor e jornalista, com extensa obra dedicada a entender o papel de intelectuais em um país desigual e perverso como o Brasil; Carolina Matos, professora no Departamento de Sociologia da University of London, onde desenvolve trabalhos sobre importantes pensadores brasileiros e o papel que desempenham na América Latina; e Hugo Suppo, professor de Relações Internacionais da Uerj, que tem atualizado o pensamento de Darcy Ribeiro, principalmente, na América Latina.

Mais homenagens

A primeira ação da Uerj para celebrar o centenário da vida e obra de Darcy foi o lançamento, em janeiro, do “Calendário Ano Darcy Ribeiro 2022”. Elaborada pela Diretoria de Comunicação Social (Comuns), a produção pode ser baixada gratuitamente e traz informações e links em QR code para conteúdos relevantes sobre o sociólogo.

Já no último dia 20 de outubro, ocorreu o seminário “A utopia é aqui”, promovido pela Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PR3). Participaram o cineasta Zelito Vianna; a professora Helena Bomeny; o escritor Eric Nepomuceno; o filósofo Silvio Almeida; e o jornalista Florestan Fernandes Júnior. Os debatedores discutiram a importância e a atualidade do pensamento de Darcy para o enfrentamento das questões contemporâneas, como os desafios da política, a diversidade étnica e o preconceito.

A Uerj segue o cronograma de homenagens, com a 31º edição da Uerj Sem Muros, entre os dias 7 e 11 de novembro. Haverá apresentação de trabalhos de conclusão de curso de graduação e de projetos de pesquisa e extensão. O tema deste ano é “Amazônia: Vida e Preservação”, um dos princípios norteadores da trajetória de Darcy Ribeiro.